sexta-feira, 29 de maio de 2009

DOCUMENTO INEDITO COMPROVA REABILITAÇÃO DE PADRE CÍCERO

O processo pela reabilitação do Padre Cícero,
que tramita no Vaticano, terá novo documento anexado Comitiva de religiosos, políticos e intelectuais
participou da entrega da documentação em Roma
Três anos depois da entrega ao Vaticano do pedido de reabilitação do Padre Cícero Romão Batista, a Congregação para a Doutrina da Fé — a quem cabe analisar os documentos apresentados — mantém-se em silêncio sobre o processo. O bispo da Diocese do Crato, dom Fernando Panico, que se encontra na Itália, em viagem particular, não tem nenhuma informação sobre a tramitação do processo. Porém, em meio ao silêncio do Vaticano, uma novidade ressurge. O padre Francisco Roserlândio de Souza, coordenador do Departamento Histórico Diocesano Padre Antônio Gomes de Araújo, apresenta um documento inédito, de grande relevância, que será anexado ao processo no Vaticano.
“O documento trata-se de um exame de habilitação sacerdotal do Padre Cícero, um processo investigatório que era realizado antigamente com o objetivo de saber se um candidato a padre teria idoneidade para exercer o Ministério Sacerdotal. Hoje, este exame tem o nome de escrutínio”, explica padre Roserlândio.
Este documento é importante, segundo o sacerdote, porque, na época, entre 1869 e 1870, o seminarista Cícero Romão Batista não foi ordenado juntamente com os seus colegas de curso. Um dos motivos apresentados pela reitoria do Seminário da Prainha, em Fortaleza, era de que ele lia livros de ciências ocultas.
No documento, com 46 páginas manuscritas, estão os depoimentos de oito pessoas idôneas, entre as quais, comerciantes, militares e funcionários da justiça, em favor da ordenação do então seminarista Cícero Romão Batista. No final, o vigário geral da Diocese do Ceará, monsenhor Hipólyto Gomes Brasil, afirma: “Não constando da inquirição das testemunhas produzidas nestes autos, de folha a folha, ser Cícero Romão Batista herege ou apóstata da nossa Santa Fé Católica não incurso em pena alguma vil, de fato ou de direito, por si, seus pais e avós, o referido ordenando está pronto e habilitado para todas as ordens menores e sacras e hábil para benefícios eclesiásticos pelo que diz respeito a sua sangüinidade. Assim o julgo. Fortaleza, 7 de setembro de 1869. Hipólyto Gomes Brasil”.

Caravana de caririenses no Vaticano, em maio de 2006, quando foi entregue farta documentação em defesa da reabilitação do Padre Cícero

Milagre de Juazeiro
Padre Cícero foi ordenado no dia 30 de novembro de 1870. Após sua ordenação, retornou ao Crato e, enquanto o bispo não lhe dava paróquia para administrar, ficou a ensinar Latim numa escola fundada e dirigida pelo professor José Joaquim Teles Marrocos, seu primo e grande amigo. Dois anos depois de ordenado, em 1872, foi nomeado vigário de Juazeiro do Norte, na época, um pequeno vilarejo. 20 anos depois, em 1892, o padre protagonizou o fenômeno que ficou conhecido como “O milagre de Juazeiro”, ou seja, um suposto milagre, quando a hóstia por ele consagrada, teria se transformado em sangue na boca da beata Maria de Araújo. O fenômeno deu origem a um processo que terminou com a suspensão das ordens sacerdotais do Padre Cícero Romão Batista.
Mais de um século depois desse episódio, a Igreja Católica tenta reabilitar o padre que a própria instituição condenou. Uma caravana de padres, intelectuais e políticos, liderados por dom Fernando Panico, bispo da Diocese de Crato, esteve no Vaticano em 2006, onde entregou 11 livros encadernados com o resultado das pesquisas da Comissão de Estudos para Reabilitação Histórico-Eclesial do padre Cícero Romão Batista.
Os documentos, solicitando a reabilitação do sacerdote, foram entregues ao cardeal Josef William Levado, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 30 de maio de 2006. Duas comitivas de cerca de 50 pessoas, entre elas o então governador do Ceará, Lúcio Alcântara, o arcebispo de Fortaleza, dom José Antônio Aparecido Tosi, e o bispo de Crato, dom Fernando Panico, estiveram no Vaticano.
Na carta ao papa Bento XVI, por ocasião da entrega dos documentos à Congregação para a Doutrina da Fé (e já publicada com exclusividade pelo Diário do Nordeste), dom Fernando afirmava: “Venho, com toda esperança e humildade, suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o Padre Cícero Romão Baptista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas”. A visita da caravana do Cariri ao Vaticano foi acompanhada pelo Diário do Nordeste, que publicou reportagens especiais sobre o tema.
Para reforçar os argumentos, a comitiva levou também um abaixo-assinado com 150 mil nomes e um documento assinado por cerca de 270 bispos brasileiros, que estavam reunidos em Itaci, São Paulo, pedindo a revisão histórica e eclesial do caso. O mais importante dos documentos entregues ao Vaticano foi uma petição assinada por dom Fernando Panico.
Numa exposição de motivos de 16 páginas, o bispo explica que “o ponto de partida foi um pedido do então cardeal Josef Ratzinger, hoje papa Bento XVI, para que o processo fosse reaberto e estudado”.
Pe. Roserlândio de Sousa folheia o documento com 46 páginas escritas, comprovando a habilitação. O acervo inédito será encaminhado ao Vaticano
SANTO POPULAR
Tramitação em Roma demanda tempo
“O processo é demorado, criterioso e caro”, afirma o padre José Roserlândio, em referência ao processo que tramita no Vaticano, em defesa da reabilitação do Padre Cícero. Ele explica que serão lidos criteriosamente todos os documentos entregues na Congregação para a Doutrina da Fé. A leitura é a primeira fase dos trabalhos, conforme explica o sacerdote. Dependendo dos fundamentos jurídicos com relação à solicitação feita, a pesquisa terá continuidade com uma análise mais aprofundada, o que pode demandar investigações e viagens e, conseqüentemente, despesas que devem ser custeadas pela Diocese do Crato. A expectativa permanece por parte dos milhares de seguidores do padre que já se tornou santo, canonizado pelo povo.
O Padre Cícero Romão Batista nasceu no dia 24 de março de 1844, no Crato, e morreu, 90 anos depois, no dia 20 de julho de 1934. Em março de 1865, ingressou no Seminário de Fortaleza, para seguir a carreira eclesiástica, onde é ordenado em novembro de 1870. Em abril de 1872, com 28 anos de idade, vai residir em Juazeiro, onde foi vigário e prefeito.
Em 1889, durante uma comunhão, a hóstia consagrada por ele sangrou na boca de uma beata chamada Maria de Araújo. O povo considerou o fato um milagre. As toalhas utilizadas para limpar o sangue tornaram-se objetos de adoração. A notícia espalhou-se e Juazeiro começou a ser visitada por peregrinos, interessadas nos poderes do padre.
Cícero foi acusado por membros do Vaticano de mistificação (manipulação da crença popular) e heresia (desrespeito às normas canônicas). Em 1894, foi punido com a suspensão da ordem.
Por todo o restante da vida, ele tentou, em vão, revogar a pena. Em 1898, foi a Roma e encontrou-se com o papa Leão XIII, que lhe concedeu indulto parcial, mas manteve a proibição de celebrar missas. Apesar da proibição, Cícero jamais deixou de celebrar missas em sua igreja em Juazeiro. Após sua morte, sua fama e seus feitos foram divulgados entre as camadas populares. Embora ainda banido pela Igreja, tornou-se, de fato, um santo entre os sertanejos.
No final do século 20, o Papa Bento XVI, quando ainda era cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, propôs um estudo sobre o Padre Cícero com a finalidade de, possivelmente, reabilitá-lo perante a Igreja Católica e, eventualmente, beatificá-lo.
Como santo popular, Padre Cícero tornou-se um fenômeno na região Nordeste.
Quatro grandes romarias realizadas em Juazeiro do Norte ao longo de cada ano concentram número crescente de romeiros, especialmente nordestinos, mas também de outros Estados brasileiros.

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