segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sertão dos Inhamuns: 'Pedra Santa´ atrai a devoção de fiéis em Independência

Em uma região árida e pouco habitada, moradores atribuem à formação rochosa vários milagres.
Para devotos, formação rochosa lembra a imagem de Nossa Senhora
"Para muitos, pode até ser somente uma pedra qualquer, mas, para mim, que cresci aqui vendo a devoção de meus avós e pais e quando criança fui salvo por um milagre alcançado pela minha mãe, não é uma pedra qualquer, é uma pedra santa". Com essas palavras, em um relato emocionado, o pecuarista Fábio Sampaio se refere a um pedido que sua mãe fez aos pés da formação rochosa conhecida como "Pedra Santa", neste Município. O apelo foi pela vida do filho, à época com 4 anos, que havia se engasgado com alimento. Mesmo tão criança, Fábio se recorda dos agradecimentos da mãe, que, ao perceber que o filho tinha se recuperado, atribuiu o fato à "santa".
A "Pedra Santa" trata-se da união de várias rochas, localizadas na Serra do Pajeú, no Distrito de Jandrangoeira, em Independência, nos sertões dos Inhamuns. Nessa região árida, são comuns as formações rochosas, as quais se espalham por vários pontos da Serra, formando figuras e fendas. Uma delas lembra a imagem de uma santa. No caso, de Nossa Senhora.
De perto, parecem mesmo simples e grandes pedras acopladas naturalmente umas às outras. Um pouco mais distante e de ângulos específicos, as pedras tomam forma semelhante à de Nossa Senhora. Daí a designação de "Pedra Santa", dada pelos antigos moradores da região, incluindo a localidade de Antônio Bento, a mais próxima da "Pedra Santa", onde Fábio residiu até os 12 anos de idade. Atualmente, apenas duas famílias vivem em Antônio Bento.
Hoje aos 33 anos, o pecuarista conta que cresceu acreditando na graça alcançada por sua mãe e que viveu sua infância brincando e ajudando o pai a cuidar dos plantios e dos animais, nas proximidades da Pedra. Sua casa era a mais próxima do local, a três quilômetros da "Santa". Desse modo, a paisagem árida, que chama a atenção pela mata branca, solo pedregoso e muitas rochas, é comum para ele, assim como a crença de que a pedra é santa.
Para chegar até a formação rochosa, é preciso percorrer uma estrada de terra de 40 quilômetros e andar cerca de 400 metros em um trecho repleto de pedras
Pedidos
José Pereira, pai de Fábio Sampaio, compartilha a ideia de que o filho resulta de um milagre. Além disso, conta, ele mesmo também alcançou uma graça. Não quis contar os detalhes do pedido, alegando ser algo muito particular, mas garante que conseguiu com a ajuda da "santa".
Pereira diz que ainda vai pagar a promessa. "Uns 15 anos atrás, fiz uma promessa junto à Pedra e fui atendido, então vou cumprir o que prometi no momento do meu pedido, que foi pintar a Pedra, para ficar branca e bem bonita", diz.
Seu José conta várias outras histórias sobre a devoção e reverência à "Pedra Santa". Os mais antigos, segundo ele, faziam promessas e alcançavam muitos milagres. "Vi muitas vezes acenderem velas lá e também as pessoas soltando fogos, tudo para agradecer por pedidos atendidos", recorda.
Ele afirma ainda que um amigo seu, morador do outro lado da Serra, também recebeu um milagre da "santa" e os dois irão pagar juntos pela graça. "Ele conseguiu que um poço furado na sua propriedade provesse água nos tempos de necessidade de água", relata.
Já a dona de casa Zeneide Gomes, atual moradora da casa em que Fábio morou na infância, também acredita no poder da "Pedra Santa". Ela mora há dois anos no local, com o esposo e uma neta. Zeneide está com um problema de saúde e diz ter pedido à "santa" para ficar boa. "Agora, estou aguardando. Sei que vou ficar curada porque acredito que ela é milagrosa. Uma imagem perfeita como essa no meio desse sertão só pode ser mesmo coisa de Deus", comenta.
Chuvas
Os pedidos mais comuns, de acordo com José Pereira e seu filho Fábio, eram alusivos ao inverno, pedindo chuvas e água para a região. A escassez de água, os problemas climáticos e a falta de políticas públicas mais atuantes desfavoreceram o Município ao longo da história.
Independência se enquadra no polígono das secas e, por muitas vezes, sofreu por esse motivo. Segundo pesquisas científicas, é um dos Municípios mais áridos e com maior índice de desertificação do Estado.
Para chegar até a formação rochosa, é preciso percorrer uma estrada de terra de 40 quilômetros e andar cerca de 400 metros em um trecho repleto de pedras

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